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2008-05-11

Assumir responsabilidades... na primeira pessoa

Numa das minhas anteriores participações neste blogue dizia que aquilo que mais precisamos é que cada um assuma as suas responsabilidades, pessoais e institucionais. E que todos, como classe profissional, as assumamos também.
O debate que a Al-Madan promoveu teve assinalável êxito (pela mobilização alcançada e pela civilidade em que decorreu). Ponto final.
Glosando alguém, poderíamos dizer: falamos, falamos… mas não fazemos nada.
A Maria José Almeida, ao fazer o relato que faz da última AG da APA, disse tudo quanto à desmobilização existente e que chega a ser desmoralizadora.
Seria fácil acusar os mais jovens, que realmente, do ponto de vista profissional, deveriam ser os mais interessados em lutar por melhores condições de vida, que julgo serem também melhores políticas patrimoniais.
Outros que o façam e talvez com razão. Pelo meu lado, sinto que pessoas como eu têm especiais responsabilidades, porque, bem ou mal, quer dizer por circunstâncias geracionais favoráveis ou por mérito próprio (deixarei a outros a avaliação, tendo a presunção de pensar que ambos os factores contaram) ocupamos hoje posições de relevo tanto no plano da comunidade arqueológica como no plano das instituições do Estado.
Acontece que são hoje poucos os que, com as responsabilidades sociais que eu tenho, dão realmente a cara e vão à luta, como se dizia no PREC. Estão (estamos ?) cansados e só pensam (pensamos ?) na reforma. Quanto muito falam (falamos ?) em corredores, mas não actuam (actuamos ?) consequentemente.
E isto reduz extraordinariamente a possibilidade de a arqueologia se afirmar socialmente e perante o Poder (repare-se que digo “o Poder” e não "a tutela”, porque a arqueologia não tem tutelas, nem a palavra tutela me parece civicamente recomendável).
As interrogações dos parêntesis anteriores incomodam-me bastante. Não me sinto preparado para viver uma reforma antecipada, estando no activo. E sobretudo não me sinto nada, mesmo nada, preparado para me reformar civicamente.
Assim, entendi em Março que devia aceitar o desafio para assumir novas responsabilidades associativas numa organização mais englobante, a partir da qual perspectivava já a possibilidade de trabalhar no sentido do alargamento das plataformas comuns de acção.
Candidatei-me e fui eleito para Presidente do ICOM Portugal, numa lista que incluia o trabalho inter-associativo como uma das suas prioridades.
Posso agora dizer que o ICOM Portugal acaba de dirigir convites às principais organizações representativas de profissionais que trabalham no sector património cultural (incluindo obviamente a APA) para uma primeira reunião inter-associativa a ter lugar ainda em Maio. Nessa reunião iremos tentar acertar agendas e constituir uma plataforma comum, dotada de um secretariado permanente. Desejaríamos promover, nesse quadro e no horizonte de um ano, um 1º Encontro Nacional dos Profissionais do Património Cultural.
Paralelamente a nós, ICOM Portugal, verifiquei com satisfação que também os nossos colegas do ICOMOS Portugal, incluindo arqueólogos, tomaram posição publica quanto à situação caótica em que está o aparelho do Ministério da Cultura na área do património cultural e especificamente da arqueologia.
Usando os métodos da análise marxista, creio que existem condições objectivas para que se construam plataformas comuns de acção; basta que se proporcionem também as condições subjectivas. O meu contributo vai neste sentido.
Não seria possível fazer algo idêntico no âmbito da arqueologia, para aprofundamento dos problemas específicos no nosso sector ? O que falta ? Talvez apenas que pessoas concretas com responsabilidades associativas tomem a iniciativa.
Pessoas concretas, repito. É que há-de parecer estranho, porventura narcísico, o uso tão recorrente da primeira pessoa do singular neste texto. Em boa verdade, também a mim me estranha. Mas há horas em que assumir responsabilidades é falar na primeira pessoa do singular.

2008-04-20

Ir. Intervir!

Estou atrasado na minha participação aqui. Falta de tempo, não de tema, que a Arqueologia nacional é, felizmente (!), dinâmica quanto baste para alimentar regularmente esta discussão … Mesmo se nos tempos que correm os motivos de intervenção derivam — infelizmente (!) — em maioria de notícias bastante negativas.

Regressemos ao dinamismo. Concluído o ciclo de debates da Al-Madan, o resultado deve constituir motivo de orgulho para a equipa da organização e para as associações que promoveram o evento: a adesão aos cinco debates que percorreram o país foi em todos os casos muito vasta.

Assim, como primeira constatação ressalta a confirmação desta disponibilidade para participar, que já conhecíamos na Arqueologia portuguesa.

Porém, sem minimamente beliscar o mérito dos organizadores, não devemos contentar-nos com este primeiro nível de análise. Os números, importantes, não passam de… uma adição. Decomponhamos-lhe as parcelas, interessando-nos por quem esteve (e, talvez sobretudo, quem não esteve) presente, com que índice de participação efectiva, com que objectivos.

A minha amostra não coincide com o universo dos debates realizados (estive ausente de Faro e de Conimbriga). Por outro lado, esta reflexão também resulta de um esforço simples de memória pessoal, pelo que peço desculpas por quaisquer injustiças que possa cometer — serão involuntárias! Globalmente, penso que a reflexão será representativa. Ora, que resulta então de uma análise da participação dos arqueólogos neste mês de debates promovidos pela Al-Madan?

Antes de mais, assinalar uma presença muito escassa da tutela, sobretudo quando procuramos responsáveis com capacidade de decisão, e sobretudo ao nível da administração central. Algumas ausências são particularmente ruidosas e custa a acreditar que não tenham encontrado possibilidades de participar em nenhum dos cinco debates organizados. Explicações? Ou a sua avaliação da situação actual é globalmente positiva, ou o modelo dialógico não lhes surge como útil na busca de soluções de futuro. Ambas preocupantes.

Em segundo lugar, os docentes universitários: que a sua participação activa neste esforço de reflexão tenha sido (talvez com a excepção do debate de Lisboa) tão escassa parece-me bem representativo da distância que a Universidade (de um modo geral) deixou interpor entre si e a (restante) sociedade portuguesa. Surpreende-me? Não. Lamento a ausência? Sim, muito! Penso, e já o disse aqui, que a Universidade poderá jogar um papel decisivo na alteração a médio prazo da situação estrutural que motiva a actual crise, contingente, da Arqueologia portuguesa.

Em terceiro lugar, se é indiscutível que a vasta maioria da Arqueologia nacional se faz hoje em contexto de empresa, seria também de esperar que os responsáveis destas empresas participassem massivamente. Tanto mais que as alterações em curso põe claramente em causa o futuro da Arqueologia preventiva e de emergência. Ou… Ou não põe?! Penso que sim, mas visivelmente a maioria dos meus colegas não se sente ameaçado. Ou então não sente que a ameaça valha estragar o fim-de-semana. Também é possível.

Por fim, como avaliar a participação dos que hoje trabalham (com mais ou menos vínculo e condições) na miríade de intervenções de Arqueologia preventiva e de emergência. Eles constituem sem dúvida uma pedra fundamental da nossa Arqueologia, quer em termos de efectivos, quer porque (até por imperativos estritamente biológicos) neles reside o futuro. É-me mais difícil avaliar quantitativamente a sua presença, porque o número dos que conheço é menos representativo do total. Deixemos por isso a simples aritmética das presenças para rever o “filme” (até em alusão à iniciativa de publicação on-line da Al-Madan) destes debates: não obstante a estrutura escolhida pelos organizadores ter sido extremamente aberta e fomentadora da discussão, a participação do público nos debates foi maioritariamente assegurada por caras que já conhecíamos. De onde, a conclusão necessária de que, pese embora alguns dos seus elementos tenham estado presentes, esta massa de arqueólogos no activo não se sentiu nesta ocasião motivada. Alguns para a participação activa, a maioria nem mesmo para a simples deslocação.
Poderia dizer-se que se trata aqui não de uma falta de disponibilidade para intervir, mas apenas de uma falta de interesse neste evento em particular. Poderia... Mas não pode, porque a mesma atitude se reflecte noutras ausências, maxime, na escassa taxa de associação na APA (paradoxo de uma "classe" que agora grita pela constituição de uma Ordem).

Curiosamente, esta ausência de intervenção activa acontece num momento em que a ânsia de participação é apregoada a quatro ventos desde o anonimato virtual de blogues e listas de discussão diversas.
Erro de cálculo!
Compreenda-se: não que a existência de tais meios de comunicação seja negativa. O problema que vejo é o de uma séria falta de eficácia e desperdício de energias.
Porquê? Ao contrário do que possa julgar-se do lado de lá do anonimato, essas formas de expressão não são nada incómodas para um eventual status quo (se é que ele existe na Arqueologia portuguesa, coisa de que também duvido).
Pelo contrário, as críticas assim produzidas falham desgraçadamente o alvo, logo por motivos de forma. E isto independentemente do maior ou menor acerto do conteúdo das críticas produzidas. Os mais elementares fundamentos da teoria da comunicação demonstram que a eficácia da transmissão da mensagem depende, entre outros factores, do emissor e do contexto. Emissor e contexto que, precisamente, se perdem neste anonimato.
Ora, é particularmente grave que se pretenda fazer abstracção do contexto entre arqueólogos.
Talvez seja responsabilidade nossa, daqueles que se sentem mais implicados, não termos conseguido passar esta motivação. Desde logo, reconheço o fracasso total dentro da minha própria estrutura, com pontuais e honrosas excepções.

De qualquer modo, penso estar aqui um dos problemas decisivos com que nos defrontamos: a frequente falta de disponibilidade efectiva para intervir, "molhar-se" e participar das soluções, no quadro de um mundo em que (para nosso bem ou para nosso mal, o que para o caso é irrelevante) o Estado não mais se encarrega de resolver os nossos problemas.

2008-04-09

Valeu a Pena

Encerrado o ciclo de debates “A Arqueologia em Revista”, pelo menos na componente de descentralização geográfica por vários pontos do país, pode sintetizar-se o balanço final na frase que serve de título a esta mensagem.

Valeu a pena, desde logo, porque, vencendo o cepticismo e o pessimismo de alguns, foi possível reunir quase 300 pessoas, na sua maioria ligadas profissionalmente à actividade arqueológica, para debate e reflexão de temáticas de inegável actualidade, com um tempo e profundidade até então nunca atingidos.

Mais importante, esta simples abordagem quantitativa ganha outra relevância numa perspectiva qualitativa, se constatarmos a riqueza e diversidade da grande maioria das intervenções e o clima de debate sustentado e tolerante que foi possível manter, prova da crescente maturidade individual e colectiva dos intervenientes.

A resposta aos principais desafios inerentes a este projecto é, por isso, claramente positiva: há capacidade de mobilização, de diagnóstico e de pensamento crítico plural sobre os actuais constrangimentos ao exercício da actividade nesta área e à defesa e promoção do Património arqueológico.

Valeu a pena um esforço organizativo onde deve relevar-se o apoio institucional da Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP) e, principalmente, da Associação Profissional de Arqueólogos (APA), que colaborou activamente na promoção dos eventos e os tomou como ponto de partida para a definição de novas tomadas de posição (ver em http://www.aparqueologos.org/), sem esquecer também as entidades que disponibilizaram os espaços e parte da logística dos encontros, nomeadamente o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Monográfico de Conimbriga, e as Câmaras Municipais do Porto, de Faro e de Beja.

Fundamental foi ainda a pronta e solidária colaboração dos convidados a introduzir os temas, num conjunto de 24 colegas de rica e diversificada experiência profissional e institucional de que é justo relembrar os nomes: Jacinta Bugalhão, António Carlos Valera, José Morais Arnaud, Carlos Fabião, Mário Varela Gomes e Luís Raposo em Lisboa; Paulo Costa Pinto, Lino Tavares Dias, Alexandra Cerveira Lima, Paulo Amaral, António Manuel Silva, Miguel Almeida e Luís Fontes no Porto; Rui Parreira, Miguel Lago, Nuno Ferreira Bicho e Dália Paulo em Faro; António Carlos Silva, Susana Correia, Miguel Martinho e Joaquim Carvalho em Beja; Luiz Oosterbeek, Maria José Almeida e Virgílio Hipólito Correia em Conimbriga.

Naturalmente, deve reconhecer-se que todos os intervenientes directos nos períodos de debate têm também a sua quota-parte no êxito da iniciativa.

Mas é forçoso encerrar este ponto com um agradecimento especial aos que primeiro acarinharam e se mobilizaram para pôr de pé o projecto, participando activamente na definição dos seus contornos e na organização particular de alguns eventos, nomeadamente a Maria José Almeida, o Pedro Barros, o António Manuel Silva e o António Carlos Silva.

Para o Centro de Arqueologia de Almada, que há 35 anos procura exercer consequentemente o que entende ser a sua função social na promoção da Arqueologia e do Património arqueológico, valeu a pena o esforço financeiro que um conjunto de acções desta natureza sempre envolve, só possível porque, como é frequente nesta associação, se pôde contar com forte participação voluntária de sócios e amigos, quer no registo em fotografia e vídeo (Cézer Santos, José Carlos Henrique e Francisco Silva), quer na distribuição e venda de publicações (Isabel Matos, Ana Luísa Duarte, Sónia Tchissole e Elisabete Gonçalves).

Que fazer, agora, com tudo isto?

Em primeiro lugar, o investimento no registo integral das intervenções (mais de 25 horas de gravação) permite preservá-las para memória futura e promover a sua difusão via Internet, beneficiando de uma produção final assegurada pelo Instituto Politécnico de Tomar, com uma equipa coordenada por Luiz Oosterbeek e Gonçalo Leite Velho, onde colaboraram Catarina Varanda (conversão) e Rui Marto (tratamento e edição). Deste modo se criará uma nova oportunidade de acesso a públicos mais diversificados, que assim poderão tomar conhecimento dos conteúdos abordados e participar na sua discussão, através do espaço de comentário deste mesmo blogue. Com a divulgação dos vídeos, já iniciada, será possível continuar a ler aqui as mensagens e comentários do painel de colaboradores convidados, interagindo com elas sempre que desejado.

Mas é preciso que todo este movimento tenha consequências na transformação de uma realidade que, hoje, poucos satisfaz.

Nesse sentido, será importante acompanhar o futuro percurso das instituições de tutela e, em geral, da administração pública, mas também da iniciativa privada, do movimento associativo (particularmente da APA), das universidades e de outros agentes sociais.

No que respeita à sua área de intervenção, o Centro de Arqueologia de Almada procurará tirar as necessárias ilações, estudando a viabilidade de propostas de parceria que contribuam para uma maior sociabilização da Arqueologia e para a promoção da investigação e do Património arqueológico.

2008-03-04

Sinais de esperança

Não resisto em divulgar aqui, com a devida vénia, a mensagem (de esperança...) colocada pelo JOSÉ ARNAUD no ARCHPORT. No entanto, enquanto não participante no encontro de Lisboa, gostaria de ter acesso a comentários ou impressões, ainda que menos emotivas, sobre as respectivas intervenções e debates.

ACS

Caros Amigos e Colegas:
A recente realização no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa do 1º encontro promovido pelo Centro de Arqueologia de Almada para assinalar os seus 25 anos de existência e o lançamento do 15º volume da sua utilíssima revista Almadan – Arqueologia em Revista , no qual estiveram presentes, ao longo de todo o dia, mais de uma centena de arqueólogos e estudantes de arqueologia, defendendo de um modo civilizado e democrático as mais diversas correntes e perspectivas, permite-me encarar com um pouco mais de optimismo o futuro da actividade arqueológica em Portugal, apesar de o país atravessar uma das suas mais graves crises sociais e institucionais desde a restauração do regime democrático.
A própria organização desse encontro por uma entidade particular, fundada por um grupo de estudantes, que conseguiu sobreviver e desenvolver uma actividade notável, no âmbito da divulgação e da promoção da actividade arqueológica e da valorização do património, ao longo de um quarto de século, conseguindo uma lenta mas sólida e gradual afirmação no restrito meio arqueológico português, é um exemplo para todos nós. É também um notável exemplo do que é possível realizar, mesmo neste país, com a competência, a dedicação e o sacrifício pessoal de um pequeno grupo de pessoas, desde que surja alguém com a capacidade e a vontade de as motivar em prol do bem comum, sem autoritarismo nem culto da personalidade.
O Jorge Raposo e a sua equipa são pessoas que não precisam, nem gostam, de elogios. O seu trabalho está bem à vista de todos, pelo que a melhor homenagem que se lhes pode prestar é corresponder “de alma e coração” às suas iniciativas, neste ano de grande júbilo para o Centro de Arqueologia de Almada e para a Almadan, participando nos encontros que se vão seguir, no Porto, em Faro, em Beja e finalmente em Conímbriga, inscrevendo-nos como membros do Centro, e colaborando nos próximos números da Almadan.
O Centro e a Almadan são o exemplo vivo da importância da chamada “sociedade civil”, num país em que o Estado democrático o é cada vez menos, e os políticos do Centrão, em nome da “social democracia” e do “socialismo”, se procuram descartar gradualmente das suas responsabilidades para com os seus cidadãos eleitores e os contribuintes, desbaratando os recursos comunitários, investindo no betão, em detrimento das pessoas, e esbulhando os impostos sacados com cada vez com maior eficácia aos assalariados e pequenos empresários, enquanto o país real se vai afundando e a banca vai “enriquecendo” de uma forma ilegítima, numa escandalosa e tentacular promiscuidade com o poder!
Longa vida para o Centro de Arqueologia de Almada e para os seus obreiros !
José Morais Arnaud
3/3/2008

2008-02-24

Porquê e para quê?

Estão lançados os dados do ciclo de apresentações da Al-Madan 15, que alinha algumas reflexões sobre o passado recente da Arqueologia portuguesa e está na génese da proposta de debate alargado que visa dar continuidade e generalizar essa análise, trazendo-a para a situação presente e as perspectivas de curto e médio prazo.

O resultado deste desafio colectivo só mais tarde se poderá avaliar, pois depende essencialmente da receptividade que encontrar junto dos seus principais destinatários.

Neste contexto, quando alguns ainda ponderarão a atitude pessoal a tomar, avaliando da disponibilidade e vontade de se deslocarem a algum dos pontos de debate (Lisboa, Porto, Faro, Beja e Conimbriga) ou usarem o ciberespaço de comentário, parece-me útil alinhar algumas das razões pelas quais me parece uma oportunidade imperdível e de difícil repetição.

Muito sinteticamente, está na hora de mostrar a nós próprios e aos outros que…

  • preservamos motivação e capacidade para ultrapassar uma certa “anomia” pessoal e colectiva, fomentada pelo crescimento profissional muito rápido e desregrado e agravada pela conduta errática dos poderes públicos;
  • somos capazes de ensaiar diagnósticos sustentados das situações que, hoje, provocam maior constrangimento à actividade arqueológica e à defesa e promoção do Património arqueológico;
  • constituímos uma massa crítica capaz de se assumir como interlocutor para a definição das políticas e estratégias para o sector;
  • temos ideias, ainda que plurais, sobre as condições de acesso e exercício da profissão, os imprescindíveis mecanismos de auto-regulação e as necessidades de formação;
  • conseguimos discuti-las e assumir as diferenças, abertamente, sem complexos e preconceitos, em clima de tolerância mútua, com sobreposição da riqueza dos argumentos e experiências às rivalidades e antagonismos pessoais e de grupo.

Se isto não for possível, agora ou num futuro próximo, só resta manter a velha lamúria de corredor, o discurso dos “coitadinhos” e o agravamento do clima de depressão colectiva. Mas a culpa não será só dos outros…

Para além disso, tratando-se de debates públicos e, principalmente, a divulgar pela Internet, há que ter consciência da imagem externa que projectamos, aproveitando para provar a nós próprios e aos outros que…

  • exercemos uma função socialmente útil, fundamental para o conhecimento do Passado, a melhoria das condições do Presente e do Futuro e a permanente reconstrução da memória social e das identidades individuais e colectivas;
  • merecemos, e estamos dispostos a fazer por conquistar, outra atenção do poder político e maior reconhecimento na sociedade portuguesa.

Sem a presunção de que esteja neste conjunto de eventos a solução para todos os problemas do nosso quotidiano, tenho a expectativa moderadamente optimista de que saberemos agarrar a oportunidade para, mais que não seja, abalar “águas turvas” e lançar pistas com futuro.

Se não… pelo menos dormirão de consciência mais tranquila os que tiverem tentado.

2008-02-22

A Arqueologia portuguesa no divã

Periodicamente, o meio arqueológico nacional agita-se, preocupa-se, fala de crise… Depois, esquece-se, acomoda-se e aquieta-se, até à próxima “crise”.
Lembram-se?
Foi assim no momento em que explodiu o tema da Arte do Côa, seguramente, o mais interessante e fascinante sobressalto cívico-arqueológico português – foi nos fins da 1994, já lá vão catorze anos, que a coisa saltou para os jornais.
Crise, crise, como é possível???... Como pôde tal coisa acontecer, estarmos em vias de ficar sem o gigantesco vale sagrado com as suas manifestações de arte parietal?
No (ainda) incipiente meio arqueológico nacional – não cabíamos todos num táxi, mas quase – tomava corpo uma nova geração de estudantes de Arqueologia, que teve um papel importantíssimo no processo do Côa. Um processo que foi, ele próprio, um caso de estudo de participação cívica em Portugal – a quem não conhecer, recomenda-se a leitura do livro coordenado por Maria Eduarda Gonçalves, O Caso de Foz Côa: Um Laboratório de Análise Sociopolítica. Lisboa: Edições 70, 2001. Um processo em que a acção persistente e continuada dos arqueólogos, gozando também, diga-se, de uma conjuntura política altamente favorável (o fim de ciclo do chamado cavaquismo, com tudo o que tal implicou), demonstrou a eficácia do protesto sólido, coerente, bem fundamentado e com objectivos claros e bem definidos.
Dois anos depois, em 1996, nascia o IPA, tal como o conhecemos – a este respeito é interessante reler a entrevista dada por João Zilhão, nas páginas do Al-madan, II série, 6, 1997, p. 78-98, acompanhada de comentários vários. E veio o Parque Arqueológico do Vale do Côa (primeiro e único no género, no nosso país), veio a ratificação pelo Parlamento Português da chamada “Convenção de Malta” (com o consequente aumento exponencial da actividade arqueológica de contrato), veio o Instituto Português de Arqueologia, veio a criação da Revista Portuguesa de Arqueologia e o crescimento da série monográfica Trabalhos de Arqueologia (ambas referências fundamentais da afirmação pública da actividade arqueológica), veio o grande programa de minimização de impactes do regolfo da barragem de Alqueva. Em suma, uma época de grande excitação e entusiasmo, actividade febril e grande optimismo, onde a geração dos estudantes que se manifestaram no Côa encontrou o espaço para crescer e se consolidar enquanto verdadeira comunidade profissional, tanto no sector público, como no privado.
Depois veio a crise, não a da Arqueologia, mas a do país. O engordar do défice e o emagrecer do PIB. A instabilidade política.
Depois, nova crise. Falou-se em fusão, em retrocesso ao velho modelo IPPAR – recorde-se, porque nunca será demais dizê-lo, o modelo que possibilitou a quase destruição do património do Côa. Nova agitação e pública indignação contra o Ministro da Cultura.
E a coisa ficou assim.
Depois, voltas e mais voltas, e voltou ao poder o partido que tinha salvo a Arte do Côa e que tinha apresentado o melhor Ministro da Cultura que até hoje existiu em Portugal, embora a má notícia (que sempre acompanha a boa) fosse que o dito ministro não voltaria à ribalta, pelo menos, à da Cultura, nem a sua linha doutrinária vingara no partido a que pertencia.
No domínio do Ensino, nasceu um novo modelo de formação, marcado por um paradigma diferente, o chamado de “Bolonha”. Implicou um redesenho geral dos três ciclos de Ensino Superior em Arqueologia - licenciatura / mestrado / doutoramento, de imensas potencialidades – e a consolidação da noção de que o processo formativo não se esgota neles, antes se afirmando como um processo contínuo, dito de formação ao longo da vida. Começa assim a desenhar-se a possibilidade de fazer crescer a “massa crítica” de arqueólogos com níveis avançados de formação, abrem-se mil possibilidades de concepção e desenho de acções, destinadas a profissionais já formados e em pleno exercício.
Ah!... É verdade. Afinal, o que fora ameaça em tempos passados, consumou-se no presente. Os organismos IPA / IPPAR fundiram-se e, agora já se sabe, afirmado e confirmado, a Biblioteca do IPA encerrará por tempo indeterminado, à espera de novo poiso. As consequências destes e de outros eventos não são necessariamente catastróficas, sequer dramáticas, mas são, seguramente, preocupantes. Não sabemos qual será a capacidade de afirmação e manobra dos responsáveis pela Arqueologia nacional, neste novo quadro institucional; não sabemos por quanto tempo permanecerá inacessível a melhor biblioteca especializada que temos.
Novo sobressalto. De novo a crise, a crise…
E a coisa ficou assim?
Com a devida vénia ao Zeca Afonso, diria que a indignação do arqueólogo é como o amor do estudante… Não dura mais que uma hora.
Por isso, saúda-se a iniciativa de Al-madan de criar esta Arqueologia em Revista – já agora, uma revista (Al-madan) que ao longo destes anos se tem afirmado como um espaço fundamental de notícia, balanço, encontro e debate, podendo rastrear-se nas suas páginas boa parte dos temas aqui aflorados. Pode ser (se assim o quisermos) um confortável fórum de reflexão e debate, com um fôlego e alcance que se não esgote na tradicional pirotecnia de arraial, que tem iluminado os céus em cada nova crise.
Pode ser também o lugar onde finalmente, deitados no divã, com luz velada e quase só entre nós (e o resto do mundo) nos perguntemos porque razão ainda não há um Museu em Foz Côa?... Porque razão ainda não viram a luz do dia as monografias das intervenções no regolfo da barragem de Alqueva?... Porque razão a “classe” dos arqueólogos não se consegue auto-regular, estabelecendo entre si padrões de qualidade mínimos para as intervenções de arqueologia de contrato?... Porque razão a “classe” dos arqueólogos não se consegue auto-regular, garantindo patamares dignos de remuneração aos seus técnicos?... Porque razão a “classe” dos arqueólogos não se consegue auto-regular, denunciando vigorosamente as intervenções desonestas e de inaceitável qualidade?... Porque razão não se consolida o princípio da publicação regular dos resultados das escavações (seja por que meio ou em que suporte)?
Enfim, que este espaço seja a tradicional praça do protesto indignado e de clamor contra a incúria dos outros, mas que seja também o nicho de introspecção dos arqueólogos.

2008-02-21

Lançar pontes entre os Arqueólogos

Não é fácil congregar os arqueólogos, sobretudo quando está em causa a indispensável introspecção colectiva. Para lá de tudo o que quase sempre dividiu aqueles que se intitulavam ou reconheciam como tal, hoje é notória uma profunda clivagem geracional e o "Archport", enquanto tribuna aberta tem sido disso a principal testemunha. E não se trata apenas de uma clivagem de idades, mentalidades, experiências ou conhecimentos. Afinal, há de tudo em todos os estratos etários. A verdadeira e perigosa clivagem começa a revelar-se entre aqueles que ocuparam e se mantiveram nos postos de trabalho (na Administração, no Ensino ou nas autarquias, postos que é preciso lembrar, eram quase inexistentes há 20 anos) e os que, ano após ano de intenso e por vezes riquíssimo trabalho de campo, entremeado com mestrados e até doutoramentos, vêm como única perspectiva, ou mudarem rapidamente de profissão (e todos conhecemos casos...) ou continuarem a arriscar na insegurança e na precariedade, na esperança de que uma autarquia (no Estado ou numa Universidade, já nem pensar...) venha a abrir um qualquer concurso “limpo”. É verdade que o problema é hoje transversal a toda a sociedade e a quase todas as áreas profissionais, com raríssimas excepções. Mas se ficarmos à espera das mudanças de fundo na sociedade tal como hoje a conhecemos, bem podemos esperar sentados. Será que, apesar de tudo, ao nível da “classe” é possível forçar mudanças? As questões meramente profissionais estarão desligadas da atitude da Administração, relativamente à salvaguarda do património? Se é verdade que, aparentemente e durante algum tempo, no contexto das Humanidades, os arqueólogos pareciam ser os que melhores saídas encontravam (pelo menos havia “trabalho” pago...) todos temos consciência de que isso resultava das novas exigências e condicionantes impostas pela Administração no âmbito da Salvaguarda Preventiva e não de qualquer alteração cultural de fundo. Em contrapartida, a actual degradação profissional na Arqueologia não parece decorrer ainda do desmantelamento em curso da já de si reduzida capacidade fiscalizadora e reguladora do Estado, o que faz temer ainda mais pelo futuro próximo. Mas não haverá também culpa no cartório dos Arqueólogos? Não falo, apenas na concorrência desleal entre empresas ou na exploração selvagem do “arqueólogo pelo arqueólogo”. Que fizeram os arqueólogos, enquanto grupo, para de forma organizada e concertada, demonstrar à Comunidade, que o seu trabalho era social (e até economicamente) útil, e não apenas uma mera obrigação burocrática imposta aos particulares por um Estado que esquecia ou hipotecava o seu (nosso) próprio património? Não gritaram os arqueólogos, porventura, demasiadas vezes e em casos caricatos, que vinha lá o “lobo”, criando crescente insensibilidade às questões do Património, mesmo nos “media” mais ávidos de “sangue”? Há pois que aproveitar a oportunidade que a iniciativa proporcionada pelos sucessivos lançamentos da Almadan, ela própria um símbolo da capacidade de intervenção da sociedade civil em prol da cultura e do património, com a cumplicidade de uns tantos carolas e a colaboração de algumas instituições, para reflectir sobre a “crise” e, quem sabe, relançar pontes entre as diversas “arqueologias” que permitam construir uma unidade de acção, hoje mais do que nunca, indispensável para as lutas que se avizinham.

Muito barulho por nada?...

Os arqueólogos fazem muito barulho. Somos poucos, mas quando queremos somos capazes de armar um bom estardalhaço.


Foi com estardalhaço, recorde-se, que se conseguiu fazer recuar um brutal investimento público nacional para salvaguardar um brutal património cultural da Humanidade. De tanto barulho fazermos até já somos ouvidos no meio da construção e obras públicas, tradicionalmente hostil à arqueologia e aos arqueólogos. Num seminário sobre o Novo Código dos Contratos Públicos (CCP) ouvi repetidamente ser invocado como motivo de suspensão lícita de trabalhos a “ocorrência de achados arqueológicos”. E, se sublinho a expressão, é porque me parece significativo que, numa assembleia de engenheiros e juristas (a carta fora do baralho era eu e duvido que alguém suspeitasse a minha condição profissional), ninguém questionava a razoabilidade de suspender trabalhos por esse motivo, sendo até usado como exemplo óbvio para ilustrar o enquadramento desse procedimento no âmbito do CCP.

Também o barulho que fazemos motiva comentários como os que ouvi recentemente a propósito da chamada crise dos avençados do IGESPAR: “Ah, mas os arqueólogos são muito interventivos, muito unidos”. Somos muito interventivos e muito unidos fora das situações de crise? Sem ser quando toca a rebate para salvar o património do afogamento ou o que resta de uma experiência institucional muito positiva mas sucessivamente esfrangalhada por fusões e confusões? Quantos de nós, fora dos momentos de crise, participam activamente nas discussões públicas de documentos e instrumentos que podem interferir com o património arqueológico e com o exercício da profissão? Quantos de nós, fora dos momentos de crise, tem uma intervenção civicamente responsável na defesa dos direitos pelo exercício digno da profissão? Quanto de nós, quotidianamente, exercem a sua actividade com os mais elevados padrões de qualidade e no respeito dos princípios éticos e deontológicos da profissão?

Eu quero acreditar que somos muitos. E, como muitos que somos, temos é mais que ser interventivos e unidos para saber bem o que queremos fazer com o espaço que ganhámos, justamente e com estardalhaço, na sociedade portuguesa.

Este ciclo de debates, com o feliz título “Arqueologia em Revista”, pode efectivamente ser a oportunidade de mostrarmos, perante nós próprios para podermos ser coerentes perante os outros, que todo este barulho não tem sido... por (e para) nada.

2008-02-20

Bem-Vindos

Esta mensagem marca o arranque formal de mais um espaço de diálogo sobre a situação da Arqueologia portuguesa e áreas afins, que visa alargar o modelo editorial da revista Al-Madan a outras vias de intervenção, mais regulares, interactivas e inclusivas.
O seu aparecimento neste momento está directamente relacionado com o ciclo de debates “A Arqueologia em Revista”, com o qual o Centro de Arqueologia de Almada associa à apresentação do novo volume da Al-Madan (n.º 15) um grande debate nacional, descentralizado pelas cidades de Lisboa, Porto, Faro e Beja, de 1 a 29 de Março, para encerrar em Conimbriga, a 5 de Abril.
Garantido o envolvimento da Associação Profissional de Arqueólogos e da Associação dos Arqueólogos Portugueses, foram convidados 26 profissionais de reconhecido mérito para introduzir três dos temas mais prementes na actual conjuntura: “A Arqueologia e o Poder”, “A Arqueologia e os Arqueólogos” e “A Arqueologia e a Sociedade” (programa completo e desenvolvimento temático em http://www.almadan.publ.pt/).
Todos os eventos têm entrada livre e são assumidamente pensados para permitir a expressão das opiniões e preocupações colectivas, através do incentivo à participação generalizada dos presentes.
Para além disso, houve o cuidado de criar condições para a integração dos que não puderem estar presentes em nenhum dos locais propostos, bem como dos que queiram dar continuidade ao debate ou prefiram outras formas de comunicação.
É nesse contexto que surge este blogue, onde os momentos mais significativos das várias sessões serão divulgados em registo vídeo e abertos ao comentário público, e onde um painel de colaboradores convidados continuará a reflectir e a interagir sobre estas matérias.
Espera-se e deseja-se que seja bem aproveitado o intenso esforço organizativo do CAA, a boa vontade e empenhamento das associações parceiras, e a disponibilidade e experiência dos que aceitaram ajudar a sistematizar e tornar mais produtiva a discussão.
Para isso, é importante que cada um dos leitores destas linhas se sinta motivado a enriquecer com a sua presença algum dos cinco debates programados, e a participar no comentário das matérias aqui publicadas, com moderação e sem preconceitos ou processos de intenção, para que fique demonstrada a crescente maturidade pessoal e profissional dos que se movem no ainda frágil meio arqueológico português.